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ELCAlmeida Cultura 192 As FAA e o Estado LMBBernardino recensão

No âmbito das Relações Internacionais, em geral, e dos Estudos de Segurança, em particular, desde há muito que existe uma vasta literatura que aborda a temática da guerra, as causas e as motivações que lhes estão inerentes, e nomeadamente o envolvimento das Forças Armadas – criação, meios e acções – e o impacto político, económico e social que as mesmas reflectem no espaço nacional, regional ou continental, e global.

UA-e-fim-da-presidde-Angola.pngIntrodução
No passado 13 de Fevereiro de 2026, a União Africana (UA) encerrou um dos capítulos mais dinâmicos da sua história recente. A presidência de João Lourenço, Presidente da República de Angola, chegou ao fim, entregando o testemunho ao Burundi, no fim-de-semana de 14º15 de Fevereiro, durante o 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da UA, ocorrida em Adis-Abeba, Etiópia.
Este não foi apenas um ano de gestão administrativa; foi um período em que a “Diplomacia do Diálogo” angolana foi testada no palco mais complexo do mundo.
Ainda assim, em certos sectores do Continente, ficaram situações críticas por resolver, nomeadamente, os conflitos político-militares no Sudão e na RDC, as crises político-diplomáticas no Sahel e, mais recentemente, na Somalilândia – que viu a sua secessão, declarada em Maio de 1991, agora reconhecida por Israel –, bem como na Guiné-Bissau.
I. O Impacto no seio internacional: África como sujeito, não objecto
Historicamente, a União Africana foi vista por muitos parceiros externos como uma entidade reativa. Sob a liderança de Angola, essa percepção sofreu uma mutação significativa. O impacto internacional do mandato de João Lourenço pode ser medido em três eixos fundamentais:
1. A consolidação no G20: Angola herdou a responsabilidade de operacionalizar a voz de África no G20. João Lourenço não se limitou a ocupar a cadeira; ele utilizou o fórum para exigir uma reforma sistémica das instituições de Bretton Woods (FMI e o Grupo Banco Mundial). O impacto foi claro: pela primeira vez, houve um consenso alargado sobre a necessidade de mecanismos de alívio da dívida que não estrangulassem o crescimento dos países em desenvolvimento. A presença angolana garantiu que a “voz de Adis-Abeba” fosse técnica, assertiva e economicamente fundamentada.
2. A geopolítica das parcerias energéticas: Num mundo sedento por transicção energética, Angola tudo procurou fazer por posicionar a UA como um parceiro estratégico indispensável. Ao liderar diálogos com a União Europeia (UE) e a China, o presidente angolano defendeu que África não deve ser visto, unicamente, como uma mina de “minerais críticos” (lítio, cobalto, tantalite e columbite – vulgo, coltan –, manganês, vanádio, titânio ou bauxite), mas sim como um potencial centro de processamento industrial. Este posicionamento alterou a dinâmica das negociações internacionais, forçando investidores a incluir cláusulas de “know-how”, como transferência de tecnologia e elevar a industrialização local.
3. O multilateralismo activo: Em tempos de fragmentação global, Angola manteve uma postura de não-alinhamento pragmático. O impacto internacional foi o de uma África que se recusa a eleger lados em guerras por procuração, focando-se antes na defesa do Direito Internacional e na integridade territorial, princípios que Luanda sempre defendeu e usou da sua influência para a defender arduamente devido à sua própria história de guerra-civil e agressão externa.
II. Visibilidade política e diplomática: a "marca Lourenço"
João Lourenço procurou firmar na UA o que muitos analistas chamam de “Diplomacia Presidencial de Alta Intensidade”, devido à sua intervenção pró-activa, directa e incansável na resolução de conflitos, na promoção da paz e no posicionamento de Angola como actor central na estabilidade do continente. A visibilidade que ele deu à organização não foi apenas estética, mas operacional.
1. O Processo de Luanda como referência: A crise no Leste da República Democrática do Congo (RDC) foi o grande teste. Lourenço, designado por alguns analistas, nomeadamente o académico Afonso Botaz como “Campeão da Paz e Reconciliação em África”, elevou a mediação regional ao nível de prioridade global. Ele conseguiu colocar o Presidente congolês-democrata Félix Tshisekedi e o Presidente ruandês Paul Kagame à mesma mesa em momentos críticos. Embora a paz seja um processo contínuo e frágil, a UA ganhou visibilidade como o único mediador capaz de navegar nas sensibilidades históricas da Região dos Grandes Lagos.
2. O protagonismo na Assembleia-Geral da ONU: O discurso do presidente angolano, enquanto presidente em exercício da UA, nas Nações Unidas, foi marcante. Lourenço deu visibilidade à exigência histórica de dois assentos permanentes para África no Conselho de Segurança. Ele não o fez como um pedido de favor, mas como uma correcção de uma injustiça histórica necessária para a legitimidade do sistema multilateral. De notar que, ainda recentemente o Secretário-geral, António Guterres, reafirmou que África deveria ter esses assentos.
3. Diplomacia de infra-estruturas: Ao promover o Corredor do Lobito como um projecto de interesse continental e global (com apoio dos EUA e da UE), o presidente Lourenço mostrou que a UA pode liderar projectos que integrem o comércio transcontinental. Isto deu à UA uma imagem de modernidade e viabilidade económica, afastando-se do habitual estereótipo de “gestora de crises”.
III. O papel da UA no sistema político global: sucessos e limitações
Terá conseguido a UA afirmar-se como um polo de poder? A resposta conduz-nos a um “sim” habilitado.
Sob a égide de Angola, a UA conseguiu:
1. Bloquear eventuais tentativas de divisão do continente: Em questões de alta sensibilidade internacional, a UA manteve uma posição coesa, impedindo que potências externas procurasse fragmentar o voto africano em fóruns internacionais; de certa forma e na grane maioria dos casos, conseguiu-o.
2. Influenciar a agenda climática: Na COP brasileira, a liderança angolana foi crucial para que o “Fundo de Perdas e Danos” começasse a ser capitalizado, argumentando que África é o continente que menos polui, mas o que mais sofre. Ainda assim, reconheçamos que ficou aquém do expectável. Mas “step-by-step” o caminho faz-se caminhando.
Contudo, o sistema político global ainda é dominado pelo poder de veto e pela força económica. A UA, e apesar do brilho diplomático de Angola, ainda luta contra a dependência financeira do seu próprio orçamento (muito dependente de parceiros externos). O papel alcançado foi mais o de um poder moral e estratégico, mas onde a autonomia financeira total continua a ser o maior “calcanhar de Aquiles” do Continente.
IV. O Legado de Angola: diplomacia activa em tempos de crises
O que a UA herda de Angola foi uma doutrina de acção. Em tempos de golpes de Estado – no Sahel e na Guiné-Bissau – e instabilidade no Corno de África – a crise no Tigré, a questão de secessão somalilândia e a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GBRE), que persiste colocar fortes questões geopolíticas, hídricas e de segurança colocadas pelo Sudão e pelo Egipto –, pode-se dizer que o legado de Luanda se baseia em quatro pilares:
1. O princípio da solução Africana para problemas Africanos: Angola provou que a intervenção externa muitas vezes agrava os conflitos. O legado é uma UA que deve confiar mais nos seus mecanismos regionais (nas Organizações Regionais e nos Sistemas de Intervenção Rápida – as African Stand-by Forces.) coordenados centralmente;
2. Institucionalização da Paz: A criação de centros de monitorização de conflitos e o reforço do Conselho de Paz e Segurança da UA (CPS-UA) foram marcas da gestão angolana.
3. Realismo diplomático: Ao contrário de presidências anteriores mais idealistas, Lourenço procurou assentar a sua diplomacia num realismo frio. Ele compreendeu que a diplomacia sem o apoio da segurança e da economia é (totalmente) ineficaz;
4. Resiliência institucional: Angola ajudou a reformar processos internos da Comissão da UA, tornando-a mais ágil na resposta a emergências sanitárias e desastres climáticos, paradigma aprendido durante as crises de saúde pública do passado.
V. A sucessão pelo Burundi: o que esperar?
A partir de agora, e durante um ano, a presidência rotativa passa para o Burundi, sob a liderança do Presidente Évariste Ndayishimiye. A transicção de um gigante petrolífero e militar como Angola para um país menor e encravado como o Burundi levanta inúmeras e pertinentes questões importantes.
1. O Desafio da Continuidade
O Burundi assume a UA num momento em que os processos iniciados por Angola (especialmente na RDC) estão em fase crítica. Ndayishimiye terá o desafio de manter a autoridade da UA sem possuir o mesmo "músculo" financeiro e diplomático que Luanda projectou e com um vizinho, o Ruanda, que, não poucas vezes, pelo contrário, mostra pouca apetência para o diálogo intra e extra africano.
2. As Prioridades do Burundi
Espera-se que o mandato do Burundi se foque em:
a) Juventude, paz e segurança e silenciamento das “armas”: O Presidente Ndayishimiye tem sido um forte defensor da inclusão dos jovens nos processos de decisão. O seu principal objectivo para pela “tolerância zero” sobre mudanças inconstitucionais de governo (golpes de Estado) e no fortalecimento da estabilidade regional;
b) Desenvolvimento económico e reforço da Agenda 2063: O foco burundês pasará pelo acelerar da industrialização, da transformação agrícola e pelo desenvolvimento de infra-estruturas, visando a independência financeira do continente e a concretização dos objectivos da Agenda 2063;
c) Agricultura e segurança alimentar: Sendo um país com forte base agrícola, o Burundi não deixará de procurar priorizar a resiliência alimentar, um tema vital após as disrupções nas cadeias de abastecimento globais, nomeadamente, com as tarifas de Donald Trump;
d) Gestão e segurança de recursos hídricos e saneamento: O tema da água será central para a presidência de Ndayishimiye, especialmente num continente onde o stress hídrico é um catalisador de guerras – não esquecer a crise que a GBRE, desde a sua pojecção até à sua utilização tem criado na região etíope-sudanesa-egípcia –. Neste sentido, o Burundi coloca a garantia de acesso à água segura e sistemas de saneamento como uma prioridade estratégica, essencial para a saúde pública, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável;
e) Reforço da voz da África na governação global: O presidente burundês propõe-se fortalecer a posição de África no areópago internacional, clamando por um mundo mais justo, equilibrado e inclusivo, onde inclui, inevitavelmente, a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
f) Cooperação e consenso: Ndayishimiye assegurou que a sua presidência baseada assentará no diálogo, na escuta e na cooperação com todos os Estados-membros, visando promover a unidade continental face aos persistentes desafios económicos e climáticos no que o Continente é sistémico, ou seja, à manutenção de falta de desafios estruturais profundos, inter.conectados e persistentes que afectam o funcionamento do continente como um todo, transcendendo fronteiras nacionais e governos individuais, entre si inter-ligados, criando ciclos viciosos de sub-desenvolvimento, instabilidade e pobreza que dificultam o crescimento a longo prazo.
3. O risco de introversão
O grande problema é que a UA perca o "fôlego" global que Angola lhe deu, na medida em que, tudo o parece indicar, as principais linhas de actuação e os grandes objectivos do Burundi aparente poder tender para uma agenda mais interna e regional. Recordo o que já afirmei antes: o Burundo tem um vizinho, Ruanda, que mostra muita apetência para olhar só para si e para os seus interesses... Todavia, se o Burundi souber capitalizar as estruturas de mediação deixadas por Angola, poderá surpreender ao focar-se na “diplomacia de proximidade” e levar por diante dois dos seus propalados objectivos: cooperação e consenso no reforço da voz da África na governação global.
Conclusão: De Luanda para Bujumbura…
O mandato de Angola (2025-2026) poderá ser recordado – veremos as “sequelas” – como o ano em que a União Africana se comportou como uma potência emergente. O presidente João Lourenço deixou a presidência com a imagem de um estadista que procurou saber ler os sinais dos tempos: um mundo multipolar onde África não pode ser apenas um espectador.
Angola deu à UA mais voz, músculo e direcção. O Burundi recebe agora uma organização com as expectativas elevadas. A incerteza global permanece, mas a arquitectura diplomática africana sai deste mandato mais robusta, mais conectada com o G20 e, acima de tudo, mais consciente de que a estabilidade do mundo passa, obrigatoriamente, pela estabilidade e prosperidade do continente africano. Indispensável!
Este é o fim de um ciclo de afirmação e o início de um ciclo que se deseja de consolidação social. O balanço final tende a ser positivo: Angola não serviu apenas a sua própria agenda, mas procurou servir de ponte para que o continente falasse a “uma só voz” num momento em que o mundo mais precisa(va) de ouvir a razão.

Algumas referências
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African Union. (2026a). African Union’s 51st Permanent Representatives’ Committee Session concludes. African Union Commission, January 30, 2026; https://au.int/en/pressreleases/20260130/african-unions-51st-permanent-representatives-committee-session-concludes
African Union. (2025). Decision on the African Union Theme of the Year 2026 “Assuring Sustainable Water Availability and Safe Sanitation Systems to Achieve the Goals of Agenda 2063”. Assembly of the African Union, 16 Fevereiro 2025; https://africanlii.org/pt/akn/aa-au/doc/decision/2025-02-16/912/eng@2025-02-16ps://africanlii.org/pt/akn/aa-au/doc/decision/2025-02-16/912/eng@2025-02-16
Bembe, Miguel Domingos. (2016). A Política Externa Angolana: Doutrina e prática. Revista Mulemba, 6 (11) | 2016, p. 25-55; https://doi.org/10.4000/mulemba.1281
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Kalan, Mouctar. (2026). La présidence de l’UA passe au Burundi, symbole d’unité et de continuité. Horoya, Fév 14, 2026; https://horoya.net/2026/02/14/la-presidence-de-lua-passe-au-burundi-symbole-dunite-et-de-continuite/
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Pintinho, Zeferino. (2025). Angola e os Desafios da Estabilidade em África. Lisboa. Perfil Criativo Edições, 2025.
Vines, Alex (s/d).. Angola: Research explores Angola’s economy, politics, extractive industries and international relations. Chatham House; https://www.chathamhouse.org/regions/africa/angola

Publicado no CEDESA, 19-Fevereiro-2026

Introdução
O dia 04 de Fevereiro de 1961 não representa apenas uma efeméride no calendário cívico de Angola; constituiu o "batismo de fogo" da consciência nacionalista e o ponto de ruptura irreversível com o sistema colonial português. O ataque coordenado à Cadeia de São Paulo/PIDE, à Casa de Reclusão Militar e à 7ª, em Luanda, protagonizado por um grupo de patriotas armados predominantemente com catanas, estilhaçou a ilusão da "paz luso-tropical" propagada pelo regime de Salazar.

CEDESA_20251112_Ger-Z.pngResumo
A Geração Z, composta por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início da de 2010, representa hoje a faixa etária mais numerosa do continente africano. Num contexto em que a mediana etária africana ronda os 19 anos, esta geração emerge como força sociopolítica capaz de alterar paradigmas de poder profundamente enraizados. O presente ensaio analisa o impacto da Geração Z na política africana, a forma como está a desafiar estruturas gerontocráticas e a condicionar processos eleitorais, bem como o seu papel crescente em regimes de maioria muçulmana. São abordados casos como Tanzânia e Camarões, onde a juventude digitalmente mobilizada questionou a justiça eleitoral. O texto examina também o uso das redes sociais como instrumento de mobilização e a tensão entre velhas elites políticas e uma geração que exige transparência, inclusão e futuro.
Palavras-chave: Geração Z; África; política; juventude; redes sociais; eleições
Abstract
Generation Z, comprising young people born between the mid-1990s and early 2010s, now represents the largest demographic group in Africa. With a median age of around 19, this generation is emerging as a sociopolitical force capable of reshaping entrenched power structures. This essay examines Generation Z’s impact on African politics, its challenge to gerontocratic regimes, and its influence on electoral processes, particularly in countries with Muslim majorities. Cases such as Tanzania and Cameroon illustrate how a digitally mobilized youth has questioned electoral fairness. The analysis also highlights how social media has become a tool for political engagement and resistance, as well as the tension between aging elites and a generation demanding transparency, inclusion, and opportunity.
Keywords: Generation Z; Africa; politics; youth; social media; elections

1. Introdução
Com mais de 400 milhões de africanos entre os 15 e os 35 anos (African Union, 2024), a juventude representa um dos principais fatores de mudança do continente. A Geração Z, mais educada e conectada que as anteriores, está a transformar o modo de participar na vida pública. A metodologia deste ensaio baseia-se numa análise qualitativa, combinando dados secundários de organismos internacionais, como o World Bank, UNDP, African Union, ou Afrobarometer, e estudos recentes sobre participação juvenil e digitalização política.
sta abordagem permite observar tendências transversais – do activismo online ao voto de protesto – e compreender como esta geração desafia elites envelhecidas e instituições continentais frágeis, como a União Africana (UA), incapaz de conter uma sucessão de golpes militares e a crescente desconfiança social.
2. A Geração Z africana: perfil e modos de acção
A Geração Z caracteriza-se por uma literacia digital sem precedentes e por uma profunda desconfiança nas estruturas tradicionais de poder (Afrobarometer, 2025 e Sanny, van Wyk-Khosa & Asunka, 2023). A internet móvel – que atinge mais de 66% dos africanos com menos de 30 anos (Galal, 2025) – tornou-se um espaço de formação política e de contestação.
Estes jovens vivem entre a precariedade e a esperança: o desemprego juvenil supera os 30% em vários países, como Nigéria, África do Sul e Tunísia (ILO, 2024). Esta condição gera simultaneamente frustração e criatividade política. Plataformas como Twitter (X), TikTok e Instagram,[1] principalmente, transformaram-se em arenas de mobilização, como se observou nos protestos #EndSARS, na Nigéria (Uwazuruike, 2021), o movimento #ShutItAllDown, na Namíbia (Titus, 2020), ou #WeAreRemovingADictator, no Uganda (Ainomugisha & Mwesigire, 2024)
Para além da militância digital, há uma crescente entrada de jovens em partidos políticos e candidaturas independentes. Em Gana e no Quénia, observam-se tentativas de renovar as elites, no Burkina Faso, as medidas anti-ocidentais de Ibrahim Traoré são aplaudidas e celebradas pela juventude burkinaso e africana que o vêem como o novo “Herói Africano” (Stropasolas, 2025 & Veiga, 2025), enquanto em países autoritários, como Uganda, figuras como Bobi Wine encarnam a resistência da juventude urbana à gerontocracia (BBC News, 2025).
3. A gerontocracia africana e os seus mecanismos de reprodução
A gerontocracia – domínio político exercido por elites envelhecidas – permanece um dos traços mais marcantes da política africana contemporânea. Líderes septuagenários e octogenários, como Paul Biya (Camarões, 91 anos), Teodoro Obiang Nguema (Guiné Equatorial, 82), Yoweri Museveni (Uganda, 80) e Denis Sassou-Nguesso (Congo, 81), entre outros,mantêm-se no poder há décadas (Reuters, 2025).
A manutenção destas lideranças é sustentada por redes clientelares, controlo militar e manipulação constitucional. No entanto, a crescente consciência política da juventude mina a legitimidade desses regimes. Pesquisas do Afrobarometer (2023 e 2025) indicam que mais de 70% dos jovens africanos acreditam que “a idade avançada limita a inovação política”.
Assim, a Geração Z não é apenas uma força demográfica; é um desafio cultural e simbólico à ideia de que “a autoridade vem da idade”. A linguagem política muda – #hashtags substituem slogans partidários – e a noção de “respeito pelo líder” cede lugar à exigência de resultados.
4. Eleições, legitimidade e contestação: os casos da Tanzânia e dos Camarões
Nas eleições presidenciais da Tanzânia[2], a juventude foi central na denúncia de irregularidades eleitorais e na mobilização digital. Organizações como Change Tanzania e movimentos universitários usaram as redes para expor censura, manipulação de votos e intimidação (Anyanzwa, 2025 & Global Democracy Coalition, s/d). De forma semelhante, nos Camarões, a juventude urbana, especialmente em Douala e Yaoundé, contestou a vitória de Paul Biya em 2018, acusando o regime de fraude sistemática (Amnesty International, 2019), repetindo nas recentes eleições de 2025. Em ambos os casos, a Geração Z transformou a insatisfação em discurso político, desafiando os limites impostos por regimes de longa duração, mesmo sujeita a confrontos com as autoridades (Murrey, 2025).
Além disso, o uso massivo dos VPN e plataformas cifradas indica a sofisticação tecnológica desta geração, que contorna censuras e cria redes transnacionais de solidariedade. Mesmo em países de maioria muçulmana, como Marrocos ou Tunísia, esta mobilização tem emergido em temas como direitos das mulheres e liberdade de expressão, sem se constituir como oposição religiosa, mas cívica (UNDP, 2024).
5. Mobilização digital e espaço cívico
De acordo dados estatísticos, o número de utilizadores africanos de redes sociais ultrapassou 640 milhões em 2024 (Galal, 2025), sendo 70% jovens. Este espaço virtual ampliou a participação cívica e a capacidade de fiscalização do poder.
Exemplos incluem a campanha #FreeSenegal (Oluwole, 2021), que denunciou repressão política, e o movimento #ZimbabweLivesMatter (Chingono, 2020), que levou à atenção internacional abusos estatais.
A Geração Z utiliza humor, ironia e estética digital para mobilizar através de memes e vídeos que substituem panfletos e discursos longos. Essa estética política, como nota Ndlovu-Gatsheni (Falola, 2023), é ao mesmo tempo lúdica e profundamente subversiva, pois reconfigura o espaço público em tempo real.
6. A União Africana e os limites institucionais
Apesar da retórica de “tolerância zero” a golpes de Estado, a União Africana (UA) tem-se revelado incapaz de travar a sua proliferação. Desde 2019, registaram-se 16 golpes militares ou tentativas, incluindo Mali, Burkina Faso, Níger, Gabão, São Tomé e Príncipe e Sudão (Duzor & Williamson, 2023).
As sanções impostas – suspensão de participação e congelamento de fundos – raramente produzem efeitos concretos. O principal problema reside na ausência de mecanismos coercivos e na dependência de consensos políticos entre Estados-membros, muitos deles liderados por elites igualmente autoritárias.
O actual presidente em exercício da UA, João Lourenço, representa um caso singular: Angola saiu de uma guerra-civil sem ter sofrido um golpe de Estado e tem-se posicionado como mediadora regional. No entanto, a sua capacidade de conter golpes é limitada pela falta de instrumentos jurídicos e pela resistência de regimes militares em transição.
A UA enfrenta ainda um dilema de credibilidade: enquanto condena rupturas constitucionais, permanece silenciosa perante manipulações eleitorais de líderes “eleitos” que governam há 30 ou 40 anos. Esta incoerência reduz a confiança das novas gerações na instituição continental.
7. Conclusão
A Geração Z africana é o espelho de um continente em mutação. Jovens, conectados e desiludidos com elites envelhecidas, estão a redefinir o que significa fazer política em África.
As redes sociais criaram uma arena trans-nacional de mobilização e vigilância cívica. Movimentos juvenis em países como Camarões, Nigéria, Tanzânia, e Tunísia demonstram que esta geração não é apenas demográfica, mas transformadora; ou aglutinadora, como no caso do Burkina Faso.
No entanto, o confronto entre juventude e gerontocracia permanece aberto. Enquanto as instituições continentais, como a União Africana, não adquirirem legitimidade prática e capacidade coerciva, os jovens continuarão a recorrer à mobilização digital como forma de resistência e reinvenção democrática.
Mais do que uma “ameaça”, a Geração Z é a oportunidade para repensar o contrato social africano. O seu impacto já não é potencial, é real, mensurável e irreversível.

Referências
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“African youth lag behind elders in political and civic participation except for protest, new Afrobarometer flagship report reveals“. Afrobarometer, 12 August 2025. https://www.afrobarometer.org/wp-content/uploads/2025/08/News-release-African-youth-trail-elders-in-political-and-civic-participation-Afrobarometer-bh-12aug25.pdf
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“Tanzania elections: President Magufuli in landslide win amid fraud claims”. BBC News, 30 October 2020. https://www.bbc.com/news/world-africa-54748332
“Tanzânia impõe toque de recolher após protestos eleitorais”. DW (português para África), 29/10/2025. https://www.dw.com/pt-002/tanz%C3%A2nia-imp%C3%B5e-toque-de-recolher-ap%C3%B3s-protestos-eleitorais/a-74548397
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Notas de rodapé
[1] Apesar do Facebook, com cerca de 77,27% de utilizadores, ser a plataforma social mais acedida, seguida do YouTube, com 8,51%; Instagram, 7,92%; Twitter/X, 3,44%; Pinterest, 2,2%;e LinkedIn, 0,38% (Global Stats: statcounter, 2025).
[2] Tanto nas eleições de 28 de Outubro de 2020 (BBC, 2020), como nas mais recentes, de 29 de Outubro de 2025 (Siposhegyi, 2025), em que Samia Suluhu Hassan se legitimou como presidente do país, após ter sido confirmada ao seu antecessor John Magufuli, cuja morte se mantém especulativa (Muschketat, 2021) as contestações foram sempre violentamente reprimidas pelas autoridades.

Publicado no CEDESA, em 12-Novembro-2025
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Introdução
A província do Exclave de Cabinda, situada ao norte de Angola, tem enfrentado uma situação política e social complexa, marcada por um histórico de luta pela autonomia e um cenário de conflitos armados.

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Decorreu no dia 25 de Março no Pestana Palace em Lisboa, o Jantar-Debate incluído nas comemorações dos 50 anos da Independência de Angola que o CEDESA leva a cabo durante este ano com o tema Trump e África: Vitória da China e Rússia?

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