Eugénio Costa Almeida
Decorridos cerca de 20 anos, o Conselho de Segurança saiu de New York e reuniu-se em Nairobi, para, numa reunião extraordinária, tratar de assuntos cadentes da região, com destaque para a crise do Sudão.
Até aqui, tudo bem, mas... da reunião extraordinária o que saiu foi a “parição de um rato”. Um dos principais factores desestabilizadores da região foi pura e simplesmente olvidado; os “Refugiados de Darfur”.
Sob a égide do CS, e para acordarem um novo definitivo cessar-fogo, reuniram-se o governo de Cartum e os rebeldes do SPLM/SPLA, de John Garang. Ora tanto Garang como Taha, vice-presidente sudanês, afirmaram que, embora desejável, a assinatura de um cessar-fogo, que prevê uma vice-presidência para Garang e os dos rebeldes entrarem no novo exército sudanês de 39000 homens, só acontecerá quando for possível; nem que isso seja pelas calendas gregas.
Um dos paradoxos desta reunião foi ter sido tratado quase exclusivamente a crise militar do Sul, que já provocou cerca de 2 milhões de vítimas desde 1983, e considerarem a Crise de Darfur (Oeste do Sudão) como um facto complementar a ter em consideração.
O ocidente, através do estadunidense John Danforth, que preside este mês ao CS, reafirmou que era tempo das “violências e atrocidades acabarem” e de se aplicar sanções aos intervenientes caso as promessas de paz não fossem levadas a sério. A China, um dos cinco indefectíveis com Direito de Veto, avisou que não aceitaria qualquer sanção contra o Sudão. Porquê? Estão a tornar-se num dos principais clientes do petróleo sudanês. Também a Rússia, Argélia e Paquistão negam eventuais sanções.
Neste caso porque não arriscam os norte-americanos um revés diplomático – já estão habituados – mas com sabor a vitória moral, avançando com a moção sancionatória. Têm todas as razões para tal.
O regime sudanês não foi acusado de apoiar a al-Qaeda; não protege Musa Hilal, um líder tribal acusado por ter chefiado um grupo de janjaweed numa chacina em Darfur, que os EUA querem levar a tribunal; um líder que afirma que em Darfur não há chacinas mas consequências de uma guerra?!
Também não se entende como o CS diz estar empenhado na defesa da integridade territorial do Sudão, como preconiza o artº. 3º b) da Carta da União Africana e, a seguir que o putativo acordo prevê a autonomia das terras austrais por um período de seis anos, sendo depois efectuado uma consulta para a independência.
Paradoxos, contradições? Não me parece. No Sul e em Darfur estão os maiores veios de petróleo para onde muitos olham na mira de uma partilha de lucros.
Os povos de Darfur continuam a penar; os refugiados sucumbem às milícias janjaweed camufladas entre os polícias que fiscalizam os campos de refugiados; a subnutrição continua a vitimar.
Até onde vamos admitir este diluir de responsabilidades por parte de todos os actores do conflito? Em finais de Julho foi a Resolução 1556; agora a Resolução 1574; amanhã será a Resolução xyz.
Enquanto isso, Cartum compra armas com os lucros do petróleo; os ocidentais alimentam os cofres de algumas grandes empresas com os donativos e alimentos que entregam às organizações humanitárias; e os refugiados vitimados penam.

Publicado no "semanário África Hoje", edição 196, de 29.Nov.2004, pág. 24
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