Eugénio Costa Almeida
No mês de Setembro ocorrem dois aniversários de dois dos maiores vultos da política e da cultura africana.
Se fossem vivos, Amílcar Cabral teria feito 80 anos no passado dia 12 e Agostinho Neto completaria 82 anos, a 17 de Setembro.

Amílcar Cabral, enquanto agrónomo foi também um investigador e autor de várias obras científicas, já Agostinho Neto, médico, teve na poesia a sua maior exponenciação. Todavia será na perspectiva de políticos que abordarei esta temática.
1. António Agostinho Neto (1) nasceu em Catete, em 1922 e faleceu, em Moscovo, em Agosto/Setembro de 1979, em circunstâncias nunca esclarecidas. De acordo com as notas oficiais o seu passamento aconteceu durante uma operação, num hospital moscovita.
Foi o primeiro Presidente de Angola, militante e um dos fundadores do MPLA, de que se tornou presidente em 1962. Foi também membro do movimento dos Novos Intelectuais de Angola, tendo pertencido à Casa de Estudantes do Império onde se pautou por ser um dos seus elementos mais activos. Essa foi uma das muitas razões por ter sido preso pela polícia política portuguesa e ter sido desterrado para São Tomé e Príncipe, onde exerceu a sua profissão.
Mas não foi a única. Em 1950 funda, em parceria com outros intelectuais afro-lusófonos (Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro), o Centro de Estudos Africanos, com finalidades culturais e políticas; é preso quando recolhia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz, de Estocolmo, ficando encarcerado durante três meses. Em 1951, adere ao português MUD-Juvenil (Movimento de Unidade Democrático) e em 1958 toma parte na fundação do Movimento anticolonialista.
Antes da independência obteve, juntamente com Cabral e Marcelino a sua maior vitória política. Consegue uma audiência pública do Papa Paulo VI.
Até à independência de Angola viveu sempre em Brazzaville, Congo, onde foi objecto de diversas contestações, destacando-se duas: uma de intelectuais, liderada por Joaquim Pinto de Andrade e denominada de Revolta Activa; e outra mais político-militar, chefiada por Daniel Chipenda – que mais tarde aderiu À FNLA – reconhecida pela Revolta Leste.
Soube torneá-las e, em 1974, assumiu a presidência de uma das facções ocorridas na independência de Angola – a outra aconteceu em Huambo liderada por Sabimbi e Holden Roberto.
2. Amílcar Cabral (1924-1973) (2) é unanimemente considerado o pai da independência guineenses e cabo-verdiana.
Engenheiro agrónomo de formação, investigador, contista e poeta e co-fundador do PAIGC, Amílcar (Hamílcar) Cabral (3) , foi um político humanista, acérrimo defensor de um total não-alinhamento, tentou levar os territórios cabo-verdiano e guineense à independência livre de qualquer das duas tutelas políticas preconizadas pelas então superpotências, os EUA e a URSS.
Descendente de cabo-verdianos, o grande sonho de Cabral residia na existência de uma única entidade política que agrupasse, após a libertação do jugo colonial, Cabo Verde e Guiné-Bissau.
A sua morte prematura (em Maio de 1974, Senghor em conversa com o coronel Fabião e o embaixador Nunes Barata afirma, claramente, que o instigador do assassínio do líder guineense teria sido Sekou Touré e não a PIDE/DGS como, convenientemente, se afirmava) ocorrida antes de ver declarada a independência impede essa pretensão. Paradoxalmente, com a morte de Cabral, também o grande sonho de Touré é diluído; a anexação da Guiné-Bissau e a criação da Grande Guiné.
Nas suas notas políticas, Amílcar Cabral clamava para o problema das elites nas sociedades cabo-verdiana e guineense, mais naquela, e para a necessidade de consciencializar o homem da rua de modo a criar uma sociedade, que chamava de vanguarda intelectual, que levasse aos guineenses e cabo-verdianos anónimos toda uma informação mais profícua sobre os seus problemas tradicionais.
Mas é em Lisboa, durante a sua estadia académica e militância política, - faz parte do MUD Juvenil e de outras organizações democráticas de juventude – que Cabral lança aquela que se considera a sua grande bandeira política “a reafricanização dos espíritos” embora assente numa comunidade fraterna que fortificaria quando os dois povos subjugados – português e africano – e levados à guerra se libertassem do opressor comum.
Estas duas personalidades se fossem vivas estariam na casa dos oitenta. Portugal parece esquecer estes dois vultos. A CIDAC, Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral (4), parece ter esquecido o seu patrono, quanto a Neto, o único evento reconhecido foi levado a efeito pela Associação Quizomba (5), em Sintra.

Notas de rodapé:
1 Cf. http://educom.fct.unl.pt/proj/casa-comum/2/biblioteca/autor.php?id=113 e http://www.cc-agostinhoneto.com/main.html
2 Esta análise é recolhida do meu próximo livro “África-Trajectos políticos, religiosos e culturais”, cuja a edição está para breve e vai ser editada pela Autonomia27; pertence ao capítulo referente ao Socialismo africano, alínea 1.4) “O Socialismo da Reafricanização dos Espíritos de Amílcar Cabral”;
3 Seu pai, em homenagem ao cartaginês Hamilcar Barca registou-o como Hamílcar; cf. “Carlos Pinto SANTOS, Amílcar Cabral: Libertador, in: http://www.vidaslusofonas.pt/amilcar_cabral.htm ou http://www.ccny.cuny.edu/humanities/jaffee/historian/1729/sigal/biog.html;
4 Cf. http://www.cidac.pt/;;
5 Cf. http://www.solnet.com/03set04/internac/intern13.htm

Publicado no "Semanário África" de 20.09.2004, pág. 24
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