Eugénio Costa Almeida
José Eduardo dos Santos na habitual mensagem ao país pelo Ano Novo além de enaltecer a reorganização do Estado, através dos quimbos, sanzalas, aldeias, vilas e cidades chamou a atenção para algo que penso ser a primeira vez que um estadista africano, e no caso, angolano, claramente evoca: NAÇÃO!!!
Uma Nação una num Estado indivisível: “Pertencemos a uma Nação e a um Estado em fase de consolidação. Cada um de nós é a emanação de uma comunidade com hábitos, usos e costumes, princípios morais e valores culturais, que se entrelaçam com os de outras comunidades através de elementos comuns ou de princípios e valores assimilados, que formam o nosso espaço cultural e a nossa identidade.”
De facto, não vejo, nem me recordo, que algum estadista africano tenha evocado para o seu país o estatuto de Nação, mas sempre como Estados formados por várias “Nações”.
E aqui, está a diferença.
Sem renegar as culturas locais das várias “nações” que formam o mosaico angolano, JES apontou para a conglomeração desse mosaico numa única entidade: a Nação angolana, relembrando-se, por certo, que um Estado-Nação é uma entidade histórica que agrupa princípios unificadores de interesses colectivos e culturais, de identidades e diversificações étnicas e raciais, pela unificação geográfica onde está inserido.
Como politólogo e analista devo sublinhar esta frase de JES tão importante para nós angolanos, como para o próprio continente Africano.
Mais do que uma palavra, está em jogo um quadrilátero, cujas fronteiras estão, há muito, internacionalmente reconhecidas, bem como a sua posição geo-estratégica no seio das Nações/Estados africanas, em geral, e da África centro-austral em particular.
Por certo que aquelas palavras irão ser escalpelizadas nos centros universitários africanos.
Depois desta mensagem, já não há razões para, em África, o Estado-Nação continuar a ser uma expressão esvaída de conteúdo e de sentido que servia, unicamente, para definir grupos e hábitos etno-tribais em detrimento da amplitude por que ela foi criada e definida; vai por certo passar a ser uma palavra com um padrão claro.
Unificação em torno de um objectivo.
Cabe agora aos centros universitários africanos reestudá-la e dar a devida continuidade a este belo paradigma.

Publicado na revista "África Today", edição nº 1, de Janeiro 2005, pág. 15 “Reflexão”
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