Eugénio Costa Almeida

 

O princípio do fim da subserviência pacífica? A crer nas últimas notícias e nos pequenos arrufos que vão acontecendo na fronteira entre a República Democrática do Congo e Angola tudo leva a crer que sim. Relembremos o início desta questão. África do Sul e Nigéria, em surdina, vão assistindo a este questionamento de Kinshasa e aplaudindo. Sempre seria uma potência regional a menos no concerto das Nações africanas!

A crer nas últimas notícias e nos pequenos arrufos que vão acontecendo na fronteira entre a República Democrática do Congo e Angola tudo leva a crer que sim.
Relembremos o início desta questão.
Em meados de Março, as autoridades democrática-congolesas acusaram as FAA’ de terem invadido o seu território na região de Bandundu, na fronteira com a província da Lunda-Norte, no que terá sido, inicialmente, negado pelas autoridades angolanas.
Mais tarde as duas autoridades terão afirmado que o problema estava na eventual deslocação de marcos fronteiriços que teriam criado este clima suspeitoso.
Provavelmente ambas, pelas últimas palavras do ministro João Miranda, ter-se-ão esquecido da delimitação de fronteiras ocorrida com o importante Tratado de Luanda, de 1927.
O que na realidade parece emergir é que depois de ganhar o poder em Kinshasa, com o inequívoco apoio de Luanda, Joseph Kabila Júnior parece agora querer mostrar as suas, ainda que tímidas, garras a Angola embora sob a falsa timidez de quem precisa da Bélgica e de Portugal.
Nada mais hipócrita!
Luanda diz que acolhe o apoio das antigas potências colonizadoras, possuidoras de documentos históricos, para a regularização eventuais dúvidas que persistem quanto à delimitação das fronteiras entre os dois países facto nunca colocado em dúvida nos consolados de Mobutu – que diga-se não morria de amores pelas autoridades de Luanda o que contribuiu para a sua queda – nem no do Kabila “pai”.
Admitamos que, por parte de Angola, esta pretensão é verdadeira.
Já não acredito que o mesmo se passa do lado dos congoleses. Estes poderão acolher Lisboa, até porque precisam das autoridades portuguesas para conseguirem aquilo que, até ao presente, – e que Mobutu muitas vezes tentou, mas não só, Brazzaville também –, o não conseguiram: provocar a secessão do enclave de Cabinda para, posteriormente, o anexar ou “suserar”.
Aliado a este hipotético pedido de intervenção há o facto, pouco habitual nos últimos anos, de cabindenses, em Kinshasa, emitirem comunicados a verberar a inoperância e o mutismo da União Africana e da Comunidade Internacional sobre a situação no enclave que, como muito bem Orlando Castro relembra, “só” fornece 60 por cento da produção petrolífera de Angola, actualmente estimada em 1,6 milhões de barris/dia.
E depois a contínua entrada de congoleses sob a aparência de garimpeiros, quer pelo Norte quer pelo Leste angolano, ainda que, sucessivamente, sejam mandados de volta ao seu país.
Mas se algo que os congoleses não acolhem nem por sonhos é uma qualquer intervenção, mesmo que filantrópica, de Bruxelas na região, quanto mais no país. Poderão acolher ajudas dos franceses, naturalmente francófonos, que mantém algumas queixas de Luanda – relembremos Angolagate, o caso Elf-Total e as críticas angolanas à intervenção francesa na Costa do Marfim –, mas apoios ou amparos dos belgas isso os congoleses só muito dificilmente e com algum manifesto interesse acolherão.
Não esqueçamos que Bruxelas apadrinhou, por vezes pouco discretamente, Jean-Pierre Bemba, o novo proscrito da sociedade política congolesa, na luta contra o regime dos Kabilas. Como poderiam os congoleses, de livre e espontânea vontade, solicitar à Bélgica a sua intermediação no hipotético conflito fronteiriço com Angola que os próprios congoleses já terão afirmado que não passou de um lapso de marcos?
A não ser…
A não ser que a Bélgica sob o protesto de tentar ajudar a reforma das forças armadas e de segurança democrática-congolesas, ainda que com o apoio de Luanda, queira recuperar o antigo esplendor de Antuérpia, em tempos considerada como o Centro Mundial dos Diamantes, que, paulatinamente, vem perdendo para angolanos e russos.
Ou, a não ser que Kabila queira provocar uma crise institucional na região e retirar a Angola qualquer tipo de força política e militar pensando que os angolanos estarão mais preocupados em recuperar a economia que cimentar a sua importância estratégica na África Central.
Se Kabila, ou os seus estrategas, assim o pensam será um estratégico e político erro de palmatória.
Nem Angola está enfraquecida militarmente, pelo contrário, como comprova a compra de armamento recentemente referida pelo semanário “Folha8” e citado pelo “Multipress-VOA”, nem as autoridades angolanas quererão perder a sua forte influência na região. Seria a sua declinação política…
Só um claro facto desponta desta questiúncula fronteiriça. Kabila quer sacudir a cada vez mais inoportuna importância que Luanda tem sobre Kinshasa e sobre a região centro e centro-austral de África.
África do Sul e Nigéria, em surdina, vão assistindo a este questionamento de Kinshasa e aplaudindo.
Sempre seria uma potência regional a menos no concerto das Nações africanas!
Mas esquecem que se Angola se diluir, ou perder a sua força estratégica no Golfo, Kinshasa emergirá em força e aqui a Nigéria será uma carta claramente fora do baralho porque a República Democrática do Congo “anexará” inexoravelmente Cabinda e as repúblicas adjacentes, qualquer uma delas emergentes ou efectivos produtores de petróleo e de outros produtos considerados importantes nas economias mundiais!
E Kinshasa goza de um certo carinho por parte de Beijing…

Publicado no Noticias Lusófonas, de 14.Abr.2007

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